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Watchmen

12/10/2009
Apenas os fãs mais xiitas poderão reclamar. Provavelmente por um purismo não-justificado, um apego à obra original em cada micro-aspecto, etc. Mas seriam fãs obtusos, porque muitas das diferenças que o filme apresenta em relação à HQ, foram muito bem pensadas e escolhidas, tornando a adaptação para os cinemas algo que justamente funcione melhor nas telas.
Confesso que não sei como reagirá quem nunca teve contanto com a HQ, mas pelo que pude captar das pessoas que assistiram conosco e nunca haviam lido a HQ, pouco se perdeu. O filme continua sendo um excelente filme, continua sendo denso, continua sendo “difícil”, continua um Rorschach – o teste das manchas e o personagem.
Digo que o filme (e a HQ também, mas daqui pra frente vou apenas falar do filme e parar de comparar com a HQ) é um Rorschach porque o rorschach é um teste psicológico projetivo, ou seja, dizendo a grosso modo, suas manchas não significam nada per se, quem dará um significado, quem dirá se é algo bom, mau, belo ou feio, é a pessoa que a observa. Assim também é o personagem Rorschach: ele, ao contrário de sua máscara, não é preto-no-branco (embora ele acredite que tenha um código de conduta muito claro, direto e absoluto – ou seja, irônicamente, preto-no-branco): é um personagem que comete muitos atos condenáveis, outros louváveis, que tem um senso de honra e de certo e errado convictos, que fazem com que ele seja obstinado, valente, mas também obtuso, implacável, beire a loucura.
Cabe ao espectador fazer o seu julgamento do personagem. Assim como no teste, o espectador verá o que ele quiser de Rorschach: ele não é bom ou mau per se, nem belo, feio, certo ou errado. Ele é ALGO, e nós imbuimos a ele um significado, uma representação, uma interpretação moral. Como já diz o aforismo que gosto muito: “Não existe fato moral, mas interpretação moral dos fatos”.
Embora o Rorschach seja a representação máxima dessa indefinição, da fuga dos arquétipos, o mesmo poderia ser dito, em menor nível é verdade, sobre os demais personagens. Todos ali tem traços louváveis e condenáveis e o filme ganha muitos e muitos pontos por conseguir fazer os personagens, irônicamente vigilantes mascarados e esteriótipos coloridos, pessoas que soam bem reais, orgânicas, confusas, sofridas, pensadoras, etc.
Aliás, este é mais um paradoxo do filme: ele é uma sátira aos super-heróis, cheio de clichês, uniformes extravagantes, nomes e vilões ridículos, personas que refletem esteriótipos (como o Comediante reflete perfeitamente o ideal americano em todas suas idiossincrasias: ao mesmo tempo que é acolhedor, sentimental, preocupado com a humanidade, também é bruto, ignorante, hostil, agressivo e radical); mas é também uma forma de transformar super-heróis, vigilantes mascarados, em algo além de moralistas ambulantes, pessoas unilaterais. Dá vários passos além ao retratar toda a complexidade, seja da pessoa dividida à pessoa realmente moralista e direta, mas completamente cega e prisioneira de seu código de conduta.
É difícil apontar um vilão no filme. Tão difícil quanto apontar um mocinho. Cada um sai da sala de cinema apontando seu próprio vilão ou mocinho, de acordo com suas crenças, convicções, história de vida e interpretação. E isso é absolutamente fantástico! Creio que servirá para evoluir tanto os filmes de super-heróis quanto as próprias HQs. A primeira lição foi aprendida com o duro golpe do Cavaleiro das Trevas, este reforçará e acrescentará ainda mais: ele é bem mais complexo que o Dark Knight (embora não seja necessariamente melhor).
Apenas espero que eles não tomem como lição uma “fórmula”, ou seja, que de agora em diante têm de fazer filmes obscuros, com muita violência visual e fotografia sinistra. Seria terrível. O que eles têm de aprender é a fazer coisas inteligentes e menos obras repletas de moralismos injustificados ou baseados num patriotismo atrofiado.
Voltando ao filme, destaco também o FANTÁSTICO Dr.Manhattan. Não apenas os efeitos para sua construção e a excelente atuação de Billy Crudup, que soa sempre distante, levemente melancólico, um misto de blasé com um desejo humanista e uma aguda inteligência. Tudo perfeito dentro do também muito complexo personagem que interpreta. Dr.Manhattan pontua o filme com vários questionamentos sobre a humanidade, sobre a existência ou não de Deus, sobre as improbabilidades, sobre a moral, sobre como seria se alguém realmente humano tivesse adquirido o poder de um super-homem. O mais interessante é que aí também não tira-se conclusão alguma, ou muito pouca: novamente cada um sairá achando algo, lendo o teste projetivo que ele também é, e dando valores e conclusões a ele.
Patrick Wilson (Dan Dreiberg/Coruja), Matthew Goode (Adrian Veidt/Ozymandias) e Malin Akerman (Laurie Juspeczyk/Espectral), estão com atuações apenas regulares. Suficientes para não comprometerem o filme nem os personagens, mas sem merecerem um grande destaque, que fica de fato com o trio Billy Crudup (Jon Osterman/Dr. Manhattan), Jackie Earle Haley (Walter Kovacs/Rorschach) e Jeffrey Dean Morgan (Edward Blake/O Comediante).
E isto não se deve “apenas” aos personagens, já que o Coruja e Ozymandias (Espectral realmente empalidece perto dos demais) são personagens também tremendamente complexos, questionáveis, em carne-viva. O Coruja por vezes pontua como o mais próximo do “pacato cidadão” ou normal que teríamos, mas é igualmente omisso, indeciso e cheio de seus próprios conflitos. Ozymandias mistura uma megalomania com uma grande inteligência e um idealismo aparentemente incorrigível.
A fotografia do filme está soberba, os efeitos magníficos, os coadjuvantes estão todos bem e a edição faz o melhor que pode para tentar não deixar o espectador ainda mais confuso em meio a tantos relativismos e à difícil tarefa de contar uma história longa e complexa em 2 horas e meia.
A trilha sonora me deixou confuso, e muitas vezes eu não sabia se escolhiam uma música por expresso mal-gosto, falta de criatividade; se era porque estavam debochando da cena; ou se era um misto da primeira opção com uma tentativa de contextualizar a época em que se passa o filme, com a mesma época em nosso mundo.
A direção, em geral, está muito boa. Zack Snyder de certo merece muitos elogios pelo que conseguiu com a dificílima tarefa que tinha. O resultado geral do filme é muito bom, indo muito além da absoluta maioria dos filmes hollywoodianos, e além até mesmo da maioria dos bons filmes que vemos atualmente, mainstream ou não.
Mas não é nenhuma obra-prima. Acho que o filme teria sido mais feliz se optasse, por exemplo, por utilizar uma luta mais orgânica, real, em tempo real, e não câmeras lentas, closes excessivos, etc. Nestas cenas olhamos para o filme e lembramos que é do mesmo diretor de 300 de Esparta, e isso não cabe neste filme. Também peca porque, embora toque em pontos conflituosos da humanidade, recua a partir de certo ponto, e evita que saiamos com ainda mais para pensar.
Recomendo e muito o filme: vá, confira e depois saia debatendo sobre ele, já que facilmente encontrará pessoas que assistiram com opiniões muito diversas da sua – e o que é mais lindo, igualmente corretas e igualmente discutíveis também.

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Watchmen por Lucas Veloso canecacanecacanecacanecacaneca

I watched the Watchmen! A obra-prima de Alan Moore e David Gibbons finalmente chega aos cinemas, depois de quase duas décadas de confusões nos bastidores, e de ganhar o título de “infilmável”, tamanha a sua densidade e importância na mídia.

Fico feliz de atestar que Watchmen é sim, muito “filmável”. Ajudou que as pessoas certas estavam envolvidas. E não estou falando só do diretor Zack Snyder, mas todas as pessoas, de roteiristas, produtores, passando por direção de arte, figurinistas e artesões, têm um verdadeiro amor pela graphic novel, e isso transparece no cuidado com detalhes ao longo do filme. Visualmente, é uma transcrição quase literal do estilo da HQ, com suas cores fortes bem “quadrinhescas”, que enganam o público que não sabe o que está por vir. A fotografia é bem dark, como pede a cartilha do filme sério hoje em dia.

A trilha sonora evoca os clássicos dos anos 80, mas escorrega em alguns momentos, com algumas músicas, na minha opinião, meio deslocadas.

 O roteiro ficou bem interessante, porque eles conseguem resumir o que é mais relevante da história de 12 volumes para um filme de 3 horas (na versão do diretor), criando provavelmente, o primeiro “épico super-heroístico” do cinema. Adorei alguns detalhes que adicionaram que não estavam presentes na HQ, e que só acrescentam ao filme, nunca trivializando a história. Sobre o final mudado, que causou tanta polêmica, acho que ficou satisfatório, e tornou tudo mais coeso, além de manter o foco nos personagens principais, ao invés de pedir a audiência que embarque em devaneios científicos, como na HQ. Num filme que já tem tantas coisas estranhas, talvez fosse demais para a cabeça do povo.

Depois de vermos tantos filmes de super-heróis, é chegada a hora de desconstruir o gênero no cinema, assim como Watchmen o fez nas HQs. O que faz um super-herói? Quais são as consequências dos super-poderes e da autoridade? Quem vigia os vigilantes?

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Watchmen por Pedro Sampaio canecacanecacanecacaneca

Apenas os fãs mais xiitas poderão reclamar. Provavelmente por um purismo não-justificado, um apego à obra original em cada micro-aspecto, etc. Mas seriam fãs obtusos, porque muitas das diferenças que o filme apresenta em relação à HQ, foram muito bem pensadas e escolhidas, tornando a adaptação para os cinemas algo que justamente funcione melhor nas telas. Confesso que não sei como reagirá quem nunca teve contanto com a HQ, mas pelo que pude captar das pessoas que assistiram conosco e nunca haviam lido a HQ, pouco se perdeu. O filme continua sendo um excelente filme, continua sendo denso, continua sendo “difícil”, continua um Rorschach – o teste das manchas e o personagem.

Digo que o filme (e a HQ também, mas daqui pra frente vou apenas falar do filme e parar de comparar com a HQ) é um Rorschach porque o rorschach é um teste psicológico projetivo, ou seja, dizendo a grosso modo, suas manchas não significam nada per se, quem dará um significado, quem dirá se é algo bom, mau, belo ou feio, é a pessoa que a observa. Assim também é o personagem Rorschach: ele, ao contrário de sua máscara, não é preto-no-branco (embora ele acredite que tenha um código de conduta muito claro, direto e absoluto – ou seja, irônicamente, preto-no-branco): é um personagem que comete muitos atos condenáveis, outros louváveis, que tem um senso de honra e de certo e errado convictos, que fazem com que ele seja obstinado, valente, mas também obtuso, implacável, beire a loucura.

Cabe ao espectador fazer o seu julgamento do personagem. Assim como no teste, o espectador verá o que ele quiser de Rorschach: ele não é bom ou mau, nem belo, feio, certo ou errado. Como já diz o aforismo que gosto muito: “Não existe fato moral, mas interpretação moral dos fatos”. A trilha sonora me deixou confuso, e muitas vezes eu não sabia se escolhiam uma música por expresso mal-gosto, falta de criatividade; se era porque estavam debochando da cena; ou se era um misto da primeira opção com uma tentativa de contextualizar a época em que se passa o filme, com a mesma época em nosso mundo.

Mas não é nenhuma obra-prima. Acho que o filme teria sido mais feliz se optasse, por exemplo, por utilizar uma luta mais orgânica, real, em tempo real, e não câmeras lentas, closes excessivos, etc. Nestas cenas olhamos para o filme e lembramos que é do mesmo diretor de 300 de Esparta, e isso não cabe neste filme. Também peca porque, embora toque em pontos conflituosos da humanidade, recua a partir de certo ponto, e evita que saiamos com ainda mais para pensar.

Recomendo e muito o filme: vá, confira e depois saia debatendo sobre ele, já que facilmente encontrará pessoas que assistiram com opiniões muito diversas da sua – e o que é mais lindo, igualmente corretas e igualmente discutíveis também.

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