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Ilha do Medo

19/03/2010

Ilha do Medo- por Lucas Veloso

Leo DiCaprio está de volta retomando a parceria com Scorsese em “Ilha do Medo”. Ele interpreta Teddy Daniels, um federal que vai investigar a misteriosa ilha Shutter, uma prisão para os criminosos com problemas mentais. Claro que nem tudo é o que parece, e ele acaba descobrindo mais da ilha do que imaginava.. ou queria.

É bom ver que a etiqueta “filme de Scorsese” ainda significa alguma coisa: a fotografia é linda, as cenas são bem-filmadas, os efeitos são bons, a ponto de não se perceber onde termina a realidade e onde começa o efeito, e para entrar no clima de paranóia do filme, ainda rolam uns interessantes truques de edição, como se o filme “pulasse” momentos, tentando replicar o pensamento de uma pessoa perturbada. Isso, ou o editor cochilou em cima do equipamento, e inadvertidamente, criou arte. Mas não acho que tenha sido isso. A música, por sua vez, altamente macabra, dá o tom certo para a narrativa.

Também é impressionante ver o elenco reunido aqui: algumas estrelas (o próprio DiCaprio, Ben Kingsley, Max Von Sydow), competentes “character actors (Mark Ruffalo, Elias Koteas, Jackie Earle Haley, Ted Levine)” e algumas surpresas (Patricia Clarkson e Michelle Williams), todos impecáveis e bem-caracterizados, de forma que não é um festival “quem é quem”, demora para você identificar cada ator. Aliás, na verdade, isso é coisa de nerds, como eu. Para as pessoas normais, eles se integram uniformemente à história, e ajudam a fazer esse “pesadelo acordado” funcionar.

Creio que houve uma certa propaganda enganosa, vendendo esse filme como terror. Há uns bons momentos de suspense e tensão, mas o filme segue uma outra (e por que não dizer, corajosa) direção, que me agradou muito, por sinal. O roteiro é intrigante, e embora eu tenha captado referências a alguns outros filmes, sutis e nem-tanto, isso não atrapalha o resultado final. Inclusive, não há motivo específico para essa história se passar nos anos 50, mas confesso que toda a indumentária detetivesca e a ambientação retrô foi interessante e bem-vinda, para quebrar um pouco os “thrillers” atuais, em que o herói resolve tudo com celular, GPS e o caramba. Aqui, meras linhas telefônicas caindo geram um caos.

Assistam… já tem um tempo que não surge um bom suspense como esse aqui, e provavelmente vai demorar um pouco para aparecer outro.

Ilha do Medo – por Pedro Sampaio

Este é talvez o filme menos Scorsese do Scorsese. Ele está bem menos convencional!

Não que Scorsese seja um cineasta CDF: ele toma algumas liberdades ocasionais e caminhos inusitados, não chegando a ser um cineasta que opta por ser o mais invisível possível, mas também não é de aloprar. E nesse filme ele alopra e, ei, dá certo!

Não vou repetir a sinopse do filme e vou direto ao que interessa: Leonardo Dicaprio está como sempre. Um ator competente que é peça segura pra qualquer cineasta, mas que não chega a ser extraordinário. Ele não se dilui em seu personagem (como o fazem por exemplo Daniel Day Lewis, Meryl Streep e outros) e ainda é Leonardo Dicaprio interpretando – com muita competência- um detetive. O resto do elenco é tão competente quanto, tornando bem mais fácil a tarefa de mergulharmos na tensão e mistério do filme.

A fotografia é… peculiar. É sempre muito bonita, mas tem uma variação constante à qual não consegui desvendar nenhuma lógica (preciso assistir ao filme de novo). Por vezes a fotografia utiliza um filtro azul; por vezes um filtro verde (filtro azul, filtro verde? Matrix? =P ); por vezes fica simplesmente pálida, com todas as cores em tons cinzas; por vezes mantém a predominância do cinza mas acentua algumas cores (como nos flashbacks da guerra com o vermelho dos lábios e do sangue, o azul e verde das cores dos olhos) e por vezes utiliza uma acentuação de todas as cores, parecendo uma vívida pintura. Muitos filmes utilizam essa mudança na fotografia, mas geralmente como uma clara distinção. O já mencionado Matrix utiliza os filtros verdes e azuis pra distinguir a matrix do “mundo real”,  enquanto A Cela varia a fotografia da palidez à vivacidade de cores para distinguir a realidade da fantasia. Ilha do Medo utiliza todos estes e alguns outros sem uma lógica aparente. Como disse, preciso ver o filme de novo com mais cuidado, mas minha impressão é que Scorsese decidiu simplesmente “aloprar” e mudar radicalmente a fotografia de um corte para outro de acordo com a que ele acredita que renderia a imagem, a sensação, o “clima” mais adequado para a cena.

Os sonhos, alucinações e flashbacks do filme são sempre interessantes, para o roteiro (que falarei em breve) e artisticamente.  Temos a oportunidade de ver incêndios que deixam as pessoas repentinamente encharcadas, corpos retorcidos congelados como um enxame, entre outras bizarramente belas cenas. Mesmo quando não estamos vendo sonhos, alucinações ou flashbacks, também são utilizados recursos interessantes. Destaque para a cena dos ratos, da tempestade no cemitério e na Ala C. Estas cenas emblemáticas e bizarramente belas, combinadas com a trilha sonora bem acentuada – que utiliza de notas bem agudas e sem sutileza alguma, que escancara a intenção de cada cena – faz o filme lembrar bastante O Iluminado, de Stanley Kubrick. O fato de ser um suspense centrado em um personagem que vai gradualmente vivenciando um horror pessoal que passa por sua própria instabilidade, reforça isso ainda mais.

Por último, o roteiro.  E que roteiro! Infelizmente não posso contar muito sem revelar aspectos fundamentais da trama mas vale o pedido para que, depois que terminarem de ver o filme, relembrem-o e percebam como foi tomada uma enorme atenção aos detalhes, que só fazem sentido ao final do filme. E o final do filme também é muito bom, encerrando de maneira intrigante, sensível e inteligente um filme intrigante, sensível e inteligente.

Por pouco não recebe todas as cinco canecas, que eu destino apenas às obras que entram na minha lista de “Putz! Gozei!”. Ok, não é a mais eloqüente das expressões, mas vocês me entendem, né? Enfim, o motivo pelo qual não entra é que apesar de ser um grande filme, intrigante, belo e muito bem executado, não chega a ser algo impressionante em nenhum destes aspectos: não chega a ser artisticamente brilhante, nem a trama brilhante, tampouco seu suspense. Mas não se deixem abater por estas linhas finais, fruto de meu perene lado ranzinza e exigente. É, inquestionavelmente, um excelente filme, MUITO recomendado, e será lembrado desde já para a lista de melhores do ano.

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2 Comentários leave one →
  1. Magma permalink
    19/03/2010 3:03 PM

    Bom filme esse. Não esperava menos do Scorcese, que agora adotou o Dicaprio como seu novo queridinho. Quem sabe agora, com essa parceria, o garoto não consegue abocanhar um oscar pra ele…

  2. 23/03/2010 5:12 PM

    SAMPAIO,

    Gostei de suas opiniões, se bem que senti quase que uma “piedade amigável” talvez pleos esforços válidos de Di Caprio em se tornar ator quase pleno de vez.

    ALiás, você mesmo diz que “chega a ser algo impressionante em nenhum destes aspectos”

    Abraços,

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