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Apenas o Fim

10/04/2010

Por Rafael Matos

Tenho uma confissão a fazer: Não gosto de filme brasileiro. Uma rejeição totalmente sem lógica, propósito ou critério e extremamente preconceituosa. Mas é assim que funciona comigo. Com essa resistência inicial, é muito difícil eu assistir a um filme nacional, mas surpreendentemente (ou não) quase todos que me disponho a ver são ótimos. Mas a implicância sempre permanece. Filmes nacionais de sucesso em sua maioria falam de favelas, bandidos ou o nordeste sofrido. Quando fogem disso, os filmes se parecem com novelas ou especiais de fim de ano da Globo. Elenco, direção, fotografia, linguagem, tudo lembra as produções globais. E isso me enche o saco. Mas em meio à minha implicância e à falta de variedade criativa do cinema nacional, alguns exemplares se salvam. A exemplo disso está o ótimo “O Cheiro do Ralo” do diretor Heitor Dhalia que me surpreendeu e, não por acaso, durante a sessão, o pensamento de que “esse filme não parece brasileiro” era recorrente. A mesma sensação foi sentida ao assistir “Apenas o Fim”  do diretor estreiante Matheus Souza. Mesmo não tendo o apuro estético e um ator experiente como Selton Melo em “O cheiro do Ralo”, Matheus consegue fazer um trabalho honesto, contemporâneo e divertido que, não fosse a lingua portuguesa falada pelos atores, passaria como um filme indie europeu fácilmente (e isso, vindo de mim, é um elogio).

O filme custou apenas 8 mil reais e foi inteiramente filmado na Puc do Rio, aparentemente como trabalho de conclusão de curso de alunos de Cinema (Matheus entre eles). Deu tão certo que acabou ganhando espaço no circuito comercial. A premissa é simples: Érika Mader vive uma garota que decide fugir de sua vida comum abandonando seus pais, seus amigos e o namorado Antônio, vivido pelo ótimo Gregório Duvivier, sem dar explicações sobre onde pretende ir. Mas antes de partir, ela resolve passar a última hora com ele, tendo uma longa conversa enquanto andam pela faculdade. Eles falam de seu relacionamento lembrando o passado, imaginando o futuro e discutindo uma série de medos e questões envolvendo a geração de que fazem parte. O roteiro, também de Matheus Souza, é repleto de referências à cultura pop e vai agradar os nerds e geeks de plantão. Não saberia dizer se o filme funcionaria com pessoas mais velhas, como meus pais por exemplo. Num momento do filme Antônio diz à sua futura ex-namorada: “espero pelo menos ter conseguido, durante o nosso namoro, te convencer que a Sony é muito melhor que a Nintendo”; uma declaração no mínimo engraçada para um casal em crise discutir, mas que não faria o menor sentido para quem não cresceu jogando videogame.

E assim, repleto de frases inspiradas, comentários ácidos e declarações duras, os dois vão fazendo um balanço do relacionamento que tiveram e vão conquistando o espectador que, ao final do filme, já está torcendo fervorosamente para que eles continuem juntos e que a tal fuga da protagonista não passe de mais um devaneio nonsense do casal. Mas para mim, o grande mérito do filme e do diretor, é o de tentar fazer um cinema nacional diferente, experimental, criativo e inteligente.  É bom ver também que existe uma galera nova ai como Matheus Souza e Esmir Filho, tentando fazer do cinema nacional algo mais rico e diversificado. Afinal de contas, estamos em um país continental, com uma diversidade cultural enorme, que vai muito além de favelas, sertão e novelas da Globo.

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2 Comentários leave one →
  1. LucasHB permalink
    11/04/2010 1:50 PM

    “Filmes nacionais de sucesso em sua maioria falam de favelas, bandidos ou o nordeste sofrido. Quando fogem disso, os filmes se parecem com novelas ou especiais de fim de ano da Globo. Elenco, direção, fotografia, linguagem, tudo lembra as produções globais. E isso me enche o saco.”

    Infelizmente, concordo em número, gênero e grau. Mas que bom que tão virando essa mesa, e tomara que venha mais coisa bacana.

  2. 11/04/2010 8:27 PM

    [3]

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