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Desejo e Reparação

01/12/2010

Desejo e Reparação – por Rafael Matos

Desejo e Reparação é uma aula de cinema em 2 horas! Temos tudo aqui para o deleite dos apaixonados por cinema.
Um bom enredo: Londres, vésperas da II Guerra. Briony, uma jovem aspirante a escritora, de imaginação fértil, acha que o filho de uma empregada de sua casa é um tarado que tenta violentar sua irmã mais velha e sua prima. Sua interpretação dos fatos causa um enorme dano na vida dos envolvidos.

Um bom elenco: Keira Knightley, sem comentários; James McAvoy, competente como sempre, e as atrizes que interpretam Briony em três fases diferentes no filme que dão um show na minha opinião. Uma boa montagem: A história é contada de forma não-linear e de forma elegante e inteligente. Ora vemos o ponto de vista da imaginativa Briony e logo somos mostrados aos fatos como de fato ocorreram. Avanços e retrocessos no tempo também ocorrem como forma de nos contar mais detalhes da trama. Tudo muito meticuloso e bem feito. Uma boa trilha: um show à parte. Ela usa elementos da cena ou da trama na sua composição criando um ritmo bastante interessante às cenas, como por exemplo o uso do som das teclas em uma máquina de escrever em algumas partes do filme. muito bacana mesmo! Uma boa fotografia: O filme é belo, não só pela presença da Keira. Planos e cenários magníficos. Tomadas ousadas e bem executadas como o enorme plano sequência que mostra o personagem de James McAvoy chegando a uma praia em meio à guerra.

Uma boa direção: Claro, coordenando tudo isso, Joe Wright, um novato em seu segundo filme, que extrai de todos da sua equipe o melhor. Me lembra muito Stephen Daldry que, também londrino, arrasou nos seus 2 primeiros filmes (Billy Elliot e As Horas) e já desponta como grande promessa no cinema. Joe Wright também dirigiu o aclamado Orgulho e Preconceito, que ainda não vi, mas já estou à caça! Vejam!

Desejo e Reparação – por Pedro Sampaio

Gostaria de pontuar que, surpreendentemente gostei da versão brasileira do título do filme. Acho que é uma das raras vezes em que escolhem um título diferente do original mas que também tem MUITO a ver com o conteúdo do filme.

É um filme muito bem feito. Maquiagem boa, edição excelente, fotografia adequada, bom roteiro e boa direção. Infelizmente o elenco é díspar e enquanto vemos uma atuação brilhante de Saoirse Ronan, Romola Garai e Vanessa Redgrave (todas como Briony em diferentes fases da vida), o elenco tem a infelicidade de contar com a sempre (até hoje) ruim Keira Knightley e uma atuação mediana de James McAvoy.

Saoirse Ronan nos apresenta uma Briony criança com uma complexidade rara. É uma criança inteligente, de imaginação fértil, um tanto mimada, arrogante, prepotente, ao mesmo tempo doce e apaixonada. E a jovem atriz transmite toda essa complexidade muito bem, nunca sendo caricata ou entregando-se aos recursos mais baixos ou previsíveis. Usa de uma postura adequada, de olhares simples porém comunicativos e uma expressão corporal notável. O mesmo com relação a Ramola Garai, que faz Briony adolescente, pois também destaca-se pela composição ressentida, ainda que sem exageros, de sua personagem. Sua postura implica a defensibilidade sem ser patética ou excessiva. Na cena da confissão para sua irmã demonstra sem quase nenhuma fala um medo, arrependimento e tristeza (méritos também ao roteiro aqui).

Vanessa Redgrave faz quase uma ponta, mas com dedicação, e nos oferta uma Briony idosa perfeitamente composta, palpável, e condizente com seu status de escritora, idosa e ainda assim, a Briony que vimos antes. Em compensação Keira Knightley interpreta, novamente, Keira Knightley. Que é a mesma atuação apática e caricata de Piratas do Caribe, Simplesmente Amor, Orgulho e Preconceito, e todos os outros. Quando está triste franze a testa e a sombrancelha, quando está feliz faz o mesmo sorriso de todos os demais filmes, quando está entediada levanta os olhos e suspira. Enfim, é uma tristeza ter de vê-la na tela. E é uma pena para o filme, que acba prejudicado pela sua incompetência usual.

James McAvoy não é o ator de Everwood, mas é terrivelmente parecido, só que com um nariz menor. E, vale a pena fazer a brincadeira-comparação também por sua atuação ser parecida. Calado, centrado, tímido mas impulsivo. É uma atuação que não demanda muito per se e por isso ele não faz muito. Não consegue dar nenhuma complexidade adcional ao papel já que varia sua interpretação entre múmia, múmia sorridente e múmia com raiva. O que também, em parte, prejudica o filme.

O roteiro do filme é muito bom, e uma direção segura. Temos falas muito bem escritas, nuances bem demonstradas, uma edição bem feita e ousada, uma semi-não-linearidade (não sei como chamar) interessante. Uma mudança de ritmo do filme e uma forma pouco convencional por gastar mais tempo no que seria a “introdução” do filme, do que em todo o resto. A questão é justamente que não tem a introdução em si, é uma história, pronto e acabou. Interessante.

Mas com problemas e coisas desnecessárias. Quando Robbie e Ceclia estão se despedindo porque ele vai para a guerra, por exemplo. Eles se despedem, ela pega o bonde, ficam se encarando e… ele corre atrás do bonde?! Pra quê? Pra fazer a cena chata de correr atrás do amor partindo? Entre outras redenções ao que de pior Hollywood faz. Felizmente são exceções e o filme sai por cima. Não é nenhuma obra-prima mas é um filme sensível e interessante, com algumas boas atuações. Vale a pena ver.

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3 Comentários leave one →
  1. Cristine permalink
    02/12/2010 8:18 PM

    Rafael, bela crítica. Você capturou bem o espírito do filme.

    Caro Pedro, vamos por partes. Primeiro, Robbie não correu atrás do bonde, correu atrás de um ônibus double-decker, típico da Inglaterra.

    Segundo, aparentemente você esqueceu que quem conta a história é Briony, e foi ela quem criou a cena do Robbie correndo atrás do ônibus. Por quê? Ora, porque Briony nunca viveu a realidade de um grande amor. Para ela, uma grande história de amor sempre teve base na ficção, e nas situações repetitivas e inconográficas vistas basicamente em todas histórias de amor, e correr atrás do amor que parte é uma das situações mais clássicas e reconhecíveis por quem busca uma história de amor – nós, os leitores, nós, a audiência. Briony queria oferecer isso a seus leitores, e a Robbie e Cecilia – como reparação – que ao menos a história de amor de ambos fosse a mais clássica e iconográfica possível, e os eternizasse em ficção.

    E terceiro, me desculpe mas sua definição da atuação de James McAvoy como “múmia” foi a mais tola que já vi, em todas as críticas já feitas ao filme. Ele simplesmente carrega o filme nas costas, e o faz de maneira contida mas incrivelmente poderosa, e acompanhamos o caminho do personagem Robbie do céu ao inferno principalmente através de suas expressões faciais, de sua postura corporal. É um ator cujos olhos falam mais que um milhão de palavras. Uma raridade numa seara dominada por atores vociferantes e exagerados, que querem atenção para si (em busca de prêmios, certamente) e desviam o foco da história que eles deveriam ajudar a contar. McAvoy é um desses atores que não busca projeção pessoal, e sim que orgulha-se em ser uma parte do difícil processo que é fazer um filme.

  2. Pedro Sampaio permalink
    04/12/2010 5:49 PM

    Cristine,

    “Primeiro, Robbie não correu atrás do bonde, correu atrás de um ônibus double-decker, típico da Inglaterra.”

    Obrigado pela correção. Sabia que não era um bonde, mas não corri atrás do termo correto porque achei que não fazia diferença no meu ponto. E, de fato, não faz.

    Mesmo assim, obrigado.

    A sua interpretação do uso de alguns estereótipos e iconografias por ser a versão de Briony, é realmente interessante. Não tinha pensando desta forma.
    Mas ainda assim me parece uma interpretação condensente com o filme, relendo alguns aspectos que poderiam ser vistos como defeitos do filme através de uma interpretação, possível, mas baseada em poucas evidências.
    Para além disso, pode-se argumentar que mesmo sendo o modo deliberado pelo qual a narradora opta por conta a história, não deixa de afetar a qualidade do filme. Um exemplo deste raciocínio: se eu crio uma história que é a descrição da versão de um narrador limitado e apegado a clichés insuportáveis, o filme é uma história da narrativa limitada e apegada a clichés insuportáveis.

    Van Helsing não passaria a ser um bom filme – nem seus defeitos seriam minimizados – se acrescentassem que aquela história é a versão do Van Helsing, que é um cara que gosta muito de explosões e não liga muito pra lógica da narrativa.

    Logo, ainda acho que o filme seria melhor sem isso. Mas reforço que achei sua interpretação interessante.

    Sobre o McAvoy, sempre tratei com desconfiança quando alguem diz que o cara “atua com os olhos”. Algumas vezes isso parece ser o caso, mas em outras me parece bobagem. Se eu pegasse imagem do rosto dele em diferentes momentos do filme – ou mais, de seus olhos – sem vc saber qual o contexto ou momento do filme, será que vc saberia me dizer o que ele estava tentando expressar?
    O que quero apontar é que nestes casos me parece que o CONTEXTO, todo o invólucro do filme, nos conduz a imaginar, deduzir, atribuir, características e qualidades a uma atuação onde não tem nada. O rei está nu.

    Como acho que deixei claro, não acho McAvoy um ator ruim, acho que interpretou um personagem pouco expressivo. Sou bastante preocupado com posturas, gestos e olhares nas atuações (e poderá verificar análises minunciosas destas características em outras criticas minhas) e também não sou adepto de interpretações “over the top”, exageradas e caricatas, como, por exemplo, com frequência o faz Nicolas Cage (mas nem sempre, ele tem momentos ótimos).

    Concordo com a última frase de seu comentário, McAvoy serve o filme, e interpreta bem seu personagem. O que eu disse, já repeti mas repetirei de novo, é que seu personagem não exige muito dele, e ele cumpre sua função satisfatoriamente.
    Dizer que ele “carrega o filme nas costas” é só o mesmo de dizer que seu personagem está em muitas das cenas que dão as principais qualidades ao filme. Mas atribuir isso à sua atuação é como dizer que a Arca “carrega o filme nas costas” com sua interpretação no filme “A Arca de Noé”.

    Abraços

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