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Cine Papos: Se Deckard é um replicante, ele é o PIOR replicante já feito!

28/09/2017

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ATENÇÃO: Contém SPOILERS do filme “Blade Runner” de 1982 e do livro “Do Androids Dream of Electric Sheep”, de Philip K. Dick.

Em 1982 foi lançado Blade Runner. Muita gente detestou, alguns curtiram, quase ninguém entendeu nada. Em 1992, uma versão do diretor foi lançada, buscando tornar a história mais visceral e próxima da visão original de Ridley Scott. Não seria a última versão do filme que veríamos… Mas o fato é que nessa versão, Ridley Scott adicionou uma sequência de sonho que encontra respaldo numa cena ao final do filme: tudo parece indicar um só resultado: Deckard, o caçador de replicantes vivido por Harrison Ford, é, ele mesmo, um replicante, o próprio ser que ele esteve caçando por todo o filme. Teve início um tsunami de discussões, discussões essas que permanecem até hoje. Deckard é ou não é um replicante? Por muito tempo, achei que a pergunta, o mistério, eram mais interessantes do que a resposta em si. Mas pensando um pouco melhor ao rever o filme recentemente, vi que não foi assim. E mesmo que Ridley bata o martelo em sua versão da história, a de que Deckard é, SIM, um replicante, eu respeitosamente peço licença para discordar. E vou explicar porque logo adiante. Mas atenção: se para você o fato de Deckard ser um replicante está sedimentado e é “bíblico”, conforme ditado por Ridley Scott e provado por diversas fontes, já aviso para não perder tempo com esse artigo. Agora, se você tem suas dúvidas e/ou tem a mente aberta para novas teorias, pode seguir adiante…

1 – A Evidência por Trás das Câmeras

Antes que me chamem de demente, e comecem a linkar a entrevista em que Ridley Scott em pessoa confirma que Deckard é um replicante, supostamente invalidando qualquer discussão, vamos analisar um pouco as filmagens: É documentado que Harrison e Ridley discutiram muito durante a produção do filme por diversos motivos, e entre eles estava o fato de Deckard ser ou não replicante. Um debate que, 35 anos depois, ainda parece não ter sido resolvido! Harrison sentia que o filme explorava o arco narrativo de Deckard como um humano dessensibilizado (como um andróide) que reencontra a sua humanidade justamente junto a esses seres artificiais que teoricamente, não deveriam sentir nada. E ainda por cima se envolve romanticamente com uma! Ele sentia que, se o personagem fosse, no fundo, um replicante, isso invalidaria ou pelo menos banalizaria essa busca. Os roteiristas Hampton Fancher e David Peoples fazem eco a esse pensamento em suas entrevistas ao livro “Future Noir” de Paul M. Sammon, leitura obrigatória para fãs da obra. Eles dizem que quiseram contrapor a ideia de que, embora Deckard não fosse artificial como os replicantes, ele também teve um criador, e ele também o fez falível e finito. Porém, numa versão antiga do roteiro, Fancher introduz a polêmica, criando uma cena em que, ao voltar para seu apartemento após “remover” todos os replicantes, a mão do detetive começa a tremer e se contrair, como a de Roy Batty tinha feito antes, quando estava prestes a “expirar”. Cansaço? Stress devido à noite difícil? Talvez, mas poderia ser algo mais. E dessa forma bem mais sutil, ficaria a dúvida no ar. A partir dessas nuances, Ridley Scott, um diretor NADA sutil (ao mesmo tempo sua maior qualidade e maior defeito), achou a ideia genial, intelectualmente provocativa, e a colocou no filme como fato. E daí vieram os “olhos vermelhos de replicante”, o origami do unicórnio, e a coisa toda. Mas são adições que não se misturam suavemente ao resto do filme, como veremos a seguir…

2 – A Evidência em frente às Câmeras

Mas a essa altura você pode dizer, “OK, mas o que acontece nos bastidores não influencia a história final, o que fica valendo é o que é dito NO FILME.” OK, tudo bem… então, vamos a ele: Uma coisa que me fez tomar partido nessa discussão, e não ficar mais satisfeito com a vaga ideia de que “É mais interessante especular”, é que ao meu ver, se Deckard é um replicante, sinto que o filme fica menos interessante, menos certeiro em sua pegada e até mesmo estúpido, em alguns momentos, por isso! Veja só, um filme tão cerebral ficar estúpido? É grave! Quais os problemas em Deckard ser um replicante? Pois bem:

A) Em primeiro lugar, se ele for um replicante, é o PIOR modelo já feito na história! No filme, os replicantes são supostamente mais fortes e até mais inteligentes que os humanos. E o que ele faz na história inteira? Só apanha! Os replicantes enchem ele de porrada a cada confronto! Ele precisa da ajuda de Rachel para apagar um, o que salva-lhe a vida, apaga outras duas de forma covarde, à traição, e o último acaba por expirar naturalmente, mas apenas após… adivinhou, enchê-lo de mais porrada e acabar decidindo poupar-lhe a vida. Sério? Para uma missão tão importante, enviariam um modelo tão limitado? Tão fraco quanto um… humano?

B) Em segundo lugar, Bryant e Gaff parecem indivíduos sérios, policiais durões. E no caso de Bryant, expressamente preconceituoso em relação a essas criaturas. Não consigo imaginá-los fazendo o joguinho de Tyrell, pajeando um replicante com memórias falsas implantadas (Bryant parece ver Deckard como um igual, inclusive convidando-o para uma bebida, enquanto na mesma cena despreza os replicantes. Que joguinho é esse?). Porém, admito que não é uma razão muito forte. Pode-se argumentar que eles são só policiais seguindo ordens, e isso inclui pajear o tal replicante. Pode ser que todos eles sejam replicantes, conforme um capítulo do livro de Phillip K. Dick indica, quando Deckard é levado para uma delegacia formada apenas por policiais replicantes. Essa parte, no livro, é justamente a parte em que Deckard se questiona se ele mesmo não é um.

C) Ainda nesse tópico, se Deckard for um replicante programado pela Tyrell Corp. e/ou a polícia para encontrar os demais, por que não fornecer imediatamente os dados necessários para ele ir caçá-los diretamente? Por que ir buscá-lo na rua, levá-lo até Bryant, depois ir testar Rachel, ir ao apartamento de Leon, etc…? Pode-se argumentar que isso provinha da vaidade de Tyrell, querendo testar seu mais novo modelo, Deckard, querendo ver como ele ia agir, e que essa ação seria justamente sua derrocada, mas dessa forma, colocamos Tyrell como um personagem muito menos inteligente do que ele parece ser na história, ao arriscar colocar vaidade acima de segurança e/ou opinião pública. Lembre-se de que há uma certa pressão para que a fuga dos replicantes seja resolvida depressa a fim de que não vá acabar na mídia. O chefe de polícia Bryant diz (parafraseio): “Ninguém vai saber que eles estão aqui, pois você vai encontrá-los e apagá-los antes disso”.

D) Quando Deckard encontra o origami de unicórnio ao final, a dita “prova definitiva” de que ele mesmo é um replicante, e Gaff sabe disso, qual a reação do caçador de androides? Ele simplesmente assente com a cabeça, lembrando das palavras de Gaff, “É uma pena que ela não viverá. Mas afinal, quem vive?” e logo em seguida, entra no elevador sem hesitação. Não me parece de forma alguma a reação de um homem adulto que acaba de descobrir que toda sua vida foi uma mentira e que ele não é o que pensava ser. Lembrem-se de Rachel, e o tanto que ela sofreu após descobrir sua real natureza de replicante!

E) Na versão de cinema, que hoje em dia é desconsiderada, Deckard afirma, em sua pavorosa “narração em OFF”, que tinha uma ex-esposa, inclusive existe uma foto dele com ela, que não é mostrada no filme. Mas novamente, não é razão suficiente, pois 1 – Não está na versão considerada definitiva do filme, e 2 – Pode facilmente se tratar do combo implante de memória + foto falsa, à la Rachel. Porém mostra que essa ideia foi pelo menos considerada, e uma atriz contratada para posar para a foto.

F) Os arcos de Roy Batty e o de Deckard são exatos opostos: Roy é um ser artificial, e supostamente sem emoções, que encontra a própria humanidade. Já Deckard é um ser humano que precisa lutar para não se tornar um ser frio e sem emoções, devido a seu trabalho alienante. Se Deckard é replicante, essa simetria se perde, e sinceramente, o que isso acrescentaria ao crescimento do personagem? Como isso torna sua jornada mais rica? Simplesmente não consigo ver.

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3 – OK, mas então…

A essa altura, imagino que esteja pensando: “OK, senhor esperto, mas então, como você explica as evidências a favor de Deckard ser replicante?”

Na verdade, é uma batalha possivelmente inútil, uma vez que no fim das contas Deckard é replicante simplesmente porque Ridley Scott QUER que ele seja replicante, uma decisão tomada tardiamente na filmagem, que como já explicitado, deixou os roteiristas e Ford desgostosos. Uma vez decidido isso, ele correu e tentou colocar as tais “pistas” que não estavam lá anteriormente. Repare que isso foi tão tardio no processo que o próprio sonho do unicórnio que surge como a prova definitiva só foi colocado quando o filme foi revisitado em 1992. Na versão original ele não existia, e nesse caso, a única boa evidência de que ele possa ser replicante são os olhos vermelhos/laranja. Sem o sonho que remete ao unicórnio, o origami ao final precisa ter uma outra explicação: 1 – O unicórnio representa Rachel, assim como o ser mítico, ela é a última de sua espécie? 2 – o unicórnio representa fertilidade e boa sorte. Um cartão de visitas de Gaff desejando o melhor ao novo casal? 3 – O unicórnio é uma figura predominante do imaginário feminino, portanto é uma das memórias de Rachel, à qual Gaff, assim como Deckard, teve acesso. Uma espécie de “piada interna” entre eles? Essa teoria, por sinal, é do diretor Frank Darabont, um fã confesso do filme, e que também não compra a teoria Deck-a-Rep.

Ridley Scott se mostrou tanto um excelente diretor quanto um diretor medíocre de ocasião. Sua filmografia é irregular, e quando se mete a dar palpite nos roteiros, então… seu ponto forte sempre foi a criação de visuais sensacionais para seus filmes, então infelizmente o que eu tiro dessa discussão toda é que ele quis deixar o filme mais “cool”, e veio com esse papo do personagem principal ser replicante apenas para chocar, mas sem o consentimento do roteirista ou mesmo do ator que interpretava o personagem, que trabalharam no filme por outro viés, sinto que isso enfraquece o produto final. Como eu disse, Deckard ser um replicante não ajuda a história ou o personagem. Na verdade, até atrapalha, pelos motivos que já citei acima. Sendo assim, a ideia aqui não é tentar convencer ninguém, até porque provavelmente estou na minoria nessa, mas sim, explicitar incoerências no filme que sinto que só surgem decorrentes dessa ideia. O filme até então é perfeito. Espero que, se nada mais, ao menos esse artigo ajude a manter viva uma das discussões mais longevas da sci-fi.

Texto por Lucas Veloso. 

MAIS LINKS SOBRE ESSA TEORIA (Em inglês):

Blade Runner: Deckard is NOT a replicant 

Why Deckard is not a Replicant and Blade Runner works less as a film if he is

Deckard is not a Replicant or “How I learned to stop worrying and love a Replicant.”

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3 Comentários leave one →
  1. 28/09/2017 2:28 PM

    Concordo contigo. O filme é muito mais interessante quando existe o paralelo entre o humano frio (que é indiferente ao teste) e o androide sensível (mais humano que os humanos).

  2. Leandro Fiore de Oliveira permalink
    04/01/2018 12:24 PM

    Pra mim, Deckard é humano. Sempre foi e sempre será. A cena de Blade Runner 2049 que mostra Deckard usando a porta para fugir enquanto K estoura a parede, e o diálogo entre os dois mostra que Deckard nunca poderia ser um replicante.

  3. Liliane permalink
    18/02/2018 2:39 AM

    Amei o artigo. E como você escolhi pensar que Deck não é um replicante. Direito nosso, não é mesmo?
    Concordo com você em tudo que disse. Ainda bem que esse direito de ter Deck como um ser humano ninguém pode tirar de nós, não é verdade?
    Um abraço.

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